Por que é tão difícil conhecer gente de verdade online?
Por Tomás Verdera · Subproject Zero
Olha, você já se perguntou por que é tão complicado? Por que a gente entra em um aplicativo querendo conhecer alguém de verdade — um amigo, um parceiro, quem sabe — e sai de lá com a mesma sensação de solidão, ou até pior? Você tenta. Manda uma mensagem direta no Instagram, talvez. Dá um ‘match’ no Tinder. Espera. E o que vem é o silêncio. Um monte de mensagens não lidas, ou pior, lidas e sem resposta.
A gente se culpa, né? Acha que não é interessante o suficiente, que está fazendo algo errado. Mas a verdade é que o problema não é você. O problema está em outro lugar.
Por que é tão difícil conhecer gente de verdade online?
É difícil porque os aplicativos que você usa não foram feitos para te ajudar a encontrar conexões genuínas. Eles são projetados para te manter dentro deles, rolando o feed, vendo anúncios, interagindo de forma superficial. O seu objetivo de fazer um amigo ou um par é, para eles, um efeito colateral, não o propósito.
Você está usando o mapa errado para chegar ao seu destino?
Pense bem: quando um aplicativo feito para registrar corridas e treinos se torna um lugar onde as pessoas buscam amigos ou encontros, algo está fora do lugar. Não é que o aplicativo seja “errado”. Ele faz o que promete: monitora seu exercício. Mas a expectativa de que ele vá te entregar uma conexão profunda, um amigo para a vida toda ou um romance, é uma ilusão. Isso acontece porque o design dele não prevê isso.
Acontece em todo lugar. Você entra no Instagram para se conectar, mas o que encontra é um palco, onde todo mundo está se apresentando para uma audiência. Ninguém está ali para te receber em uma conversa tranquila e de igual para igual. É um show, não uma sala de estar. A verdade é que fazer amigos como um adulto já é um desafio. E as plataformas que prometem diminuir essa distância, na prática, muitas vezes a aumentam. Elas te colocam em um ciclo de performance, onde ‘likes’ e a atenção alheia valem mais do que uma troca de ideias significativa. Você sente que está falando com um muro, e o problema não é você, acredite.
O algoritmo foi feito para te manter ocupado, não conectado
É um segredo aberto, mas que muita gente não para pra pensar: o que os gigantes da tecnologia como Facebook, Instagram, TikTok querem de você? Seu tempo. Cada segundo que você passa ali é dinheiro para eles. O algoritmo, essa inteligência artificial que decide o que você vê, é um mestre em te prender. Ele sabe o que te irrita, o que te diverte, o que te faz parar de rolar. Mas ele não está interessado em te ver fazer uma amizade que te leve para fora do aplicativo.
Pelo contrário. Se você encontra alguém incrível, se a conversa flui e vocês marcam um café e se desconectam para viver a vida real, o aplicativo “perdeu” você. É por isso que o design dessas plataformas, de forma quase imperceptível, trabalha contra o seu objetivo mais humano. Ele recompensa a exposição, a performance, o número de seguidores. Não a profundidade, a vulnerabilidade ou a conversa que realmente importa. As plataformas não são construídas para o que você veio buscar. Elas são construídas para te manter lá.
Mensagens que somem no limbo (e a solidão que fica)
Quantas vezes você mandou uma mensagem para alguém que não seguia no Instagram? Aquelas mensagens que caem na pasta de 'requests', ou 'solicitações', que a maioria das pessoas nunca abre. Ou, quando abrem, é apenas para ver uma notificação, não para iniciar uma conversa real. É um mecanismo de defesa das plataformas, sim, para evitar spam. Mas é também uma barreira gigantesca para quem quer se conectar de verdade.
Muitas mensagens de desconhecidos são frequentemente ocultadas ou filtradas pelas plataformas. Você pode estar dedicando seu tempo a escrever uma mensagem, achando que está se comunicando, quando na verdade ela nunca vai ser vista. E quando chega? A taxa de resposta é brutalmente baixa. O 'ghosting', ou ser ignorado do nada, não é necessariamente uma grosseria. É o resultado de um ambiente onde conversar com alguém não custa nada, e há centenas de perfis na fila. Aquele que você acreditava ser uma conversa genuína se dissolve no silêncio, alimentando a sensação de solidão e o pensamento de que o problema é seu. Mas não é.
Quando um 'match' não significa nada
Em aplicativos de namoro, a lógica é parecida, mas com um toque extra de engenharia. O 'match' é o produto. É a promessa. Mas o aplicativo não quer que você encontre a pessoa certa e delete a conta. Pelo contrário. Ele quer que você continue deslizando para a direita ou esquerda, buscando, esperando o próximo 'match' para alimentar a esperança. As 'curtidas' são racionadas, às vezes até pagas. A conversa, o encontro real, é uma métrica secundária. Porque uma necessidade resolvida é uma assinatura cancelada, um usuário a menos para ser exposto a anúncios. Os 'matches' se acumulam, mas as conversas, as conexões reais, são raras. Você está em um ciclo de busca constante, não de encontro.
Essa dinâmica se repete em vários lugares. Em grupos do Facebook, nos comentários do TikTok. É sempre uma performance para uma audiência, nunca uma conversa genuína de duas vias. As pessoas estão ali para serem vistas, não para realmente trocar uma ideia com você.
Existe, sim, uma ideia diferente. Uma forma de se conectar onde todos estão ali com um único propósito: conversar. Um lugar onde as mensagens de estranhos não são escondidas e a meta é que as pessoas realmente se encontrem, não fiquem presas em um feed infinito. Não um palco, mas uma sala de estar. Onde cada um está lá para ouvir e ser ouvido.
Mas, e você? Depois de tudo isso, você ainda acredita que os aplicativos que usa querem que você encontre alguém de verdade, ou que é você quem está usando o mapa errado para chegar ao seu destino? E se o problema nunca foi você?