Você manda mensagem, mas ninguém responde? Entenda o jogo
Por Tomás Verdera · Subproject Zero
Você abre o aplicativo. Escolhe as melhores fotos. Pensa bem na primeira mensagem. Manda. E espera. Um dia, dois, uma semana. Nada. Nenhuma resposta. De novo.
Parece que o problema é você, não é? Que você não é interessante o suficiente, ou que a mensagem não foi boa. Você revisita seu perfil, questiona suas escolhas. Mas, e se eu te disser que o problema raramente é você?
Resposta Rápida
A verdade é que a maioria desses aplicativos não quer que você encontre alguém de verdade. Não rapidamente, pelo menos. Porque seu sucesso, sua conexão real, é o fim do negócio deles. Eles lucram com a sua busca, não com o seu encontro.
Onde suas mensagens se perdem no palco digital?
Pense no Instagram. Ou mesmo no Facebook. Você vê um perfil interessante, resolve mandar um direct. O que acontece? Muitas vezes, essa mensagem não chega direto na caixa de entrada da pessoa. Ela vai para uma 'caixa de solicitações', um limbo digital que pouca gente abre. É como entregar um bilhete a alguém em um show lotado, sabendo que a pessoa está ali para assistir ao palco, não para olhar para os lados.
A lógica é cruel: a pessoa está ali para ser vista, para ter seu alcance, seus 'likes'. Uma mensagem de um estranho? É uma interrupção. As plataformas, inteligentemente, regulam isso, barrando ou atrasando DMs de quem você não segue. Elas não querem que você saia da plataforma para uma conversa privada. Elas querem você ali, olhando, rolando, gastando tempo. Seu tempo é o produto delas. É como estar num palco, onde todos te assistem, esperando aplausos, mas ninguém está pronto para sentar e conversar numa sala. Suas mensagens de conexão são apenas ruído.
O 'match' é o produto. Seu sucesso, o prejuízo.
E nos aplicativos de relacionamento, como o Tinder? A lógica é ainda mais direta. Você dá um 'like'. Recebe um 'match'. Uma pequena descarga de dopamina. Mas aí a conversa não flui. Ou nem começa. Por que tantos 'matches' ficam mudos, esquecidos, sem uma única palavra?
Aqui está a sacada: o 'match' é o produto. Não a conexão. Aquele momento de validação, de ter sido 'escolhido', é a recompensa que te mantém lá. Mas se você realmente encontrasse alguém e saísse do aplicativo, o que aconteceria? Os donos do aplicativo perderiam um usuário. Perderiam alguém que está sempre procurando, sempre rolando perfis, sempre pagando por 'boosts' ou assinaturas premium para 'ver mais perfis' ou ter mais 'likes'.
É um ciclo vicioso. As curtidas são racionadas. A visibilidade é vendida. Você fica ali, na expectativa de um 'jackpot', de um 'match' que realmente leve a algo. Milhões de mensagens se perdem em conversas que nem começam, alimentando a ilusão de que a próxima pessoa será a certa. O algoritmo não é seu amigo na busca por um encontro. Ele é o gerente de um cassino digital. O objetivo dele é te manter jogando, não te fazer ganhar.
Ghosting não é grosseria, é o sistema.
Sabe o 'ghosting'? Aquela sensação de ser ignorado do nada, sem explicação? A gente logo pensa que a pessoa é rude. Mas pense por um instante: quando falar com alguém não custa nada, quando há outras duzentas opções na fila, o que acontece? A 'conversação' se torna descartável. É mais fácil simplesmente parar de responder do que se comprometer. Não é que as pessoas sejam piores; é que o ambiente as incentiva a agir assim. O sistema permite o ghosting ao reduzir o custo da interação a zero.
A verdade é que esses lugares não foram feitos para conversas de verdade, profundas, com início, meio e fim. Eles foram feitos para performance, para uma audiência. Para curtidas, reações. Para que você passe o máximo de tempo possível vendo perfis, anúncios, conteúdos. Para que a sua busca por alguém se torne infinita. A solidão pode ser um ótimo negócio.
Então, da próxima vez que uma mensagem ficar sem resposta, ou um 'match' não virar nada, lembre-se: o problema não é você. É o design. É a lógica por trás da tela. Você estava num palco quando precisava de uma sala. Mas será que existe um lugar onde todos estão ali para conversar, de verdade, sem a plateia e sem os bastidores que só querem seu tempo?